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O CANTO DO CÁRCERE
Ouço um canto distante
Uma agonia de morte
Ouço um canto trancado
Nas grades da sorte.
Ouço o canto da terra
Um pio (infeliz desespero)
Um amargo canto de guerra
Quebrando no pó do terreiro
Ouço o canto dos canhões
O sibilar cântico das balas
Que bailam retilíneas
No canto dos aviões
Assim cantam os tambores
Nas rodas de capoeiras
Assim cantam as lágrimas
No canto das cantoneiras
Ouço o canto do veneno
E me encolho num canto
Cantando uma reza silenciosa
Por um cárcere mais ameno
Não o cárcere das prisões
De onde vem o canto da dor
Mas da jaula dos cativeiros
Da “cova dos leões”
Ouço o canto da mortalha
Do borbulhar da lagoa
Respirando nos esconderijos
Sobras de anzóis e navalhas
Ouço o canto do cárcere
Do passarinho na gaiola
Do infinito desvirginado
Por “astronautas de mármore”
Ouço o canto das rodas
Das serras elétricas
Mutilando famílias
Em nome da moda
Não a moda que canta
No despertar da cigarra
Nem a moda caipira
Que o matuto decanta
Sim, a moda das celas
Nas palavras do mundo
No batuque do surdo
Pela “vaca amarela”
Ouço o canto dos cantos
No estribilho do cárcere
“Liberdade! Liberdade!”
Abra as asas, ouço o canto!
Ouço o canto que ouço
Sem paixão demagoga
Ou emoção que exploda
As grades do calabouço
Onde enterram os ninhos
E enclausuram retratos
Simples (três por quatro)
Vida, vento moinhos
Ouça o canto do meu pai
De joelhos em Aparecida
Ou pedindo aos mendigos
Ou orando aos iguais
Ouça o canto da cidade
As buzinas, os faróis
Ouça o canto das fábricas
Canta... canta cidade!
Ergue teu povo ao crepúsculo
Que o sangue tingido no azul
Sustenta a esperança perdida
Na flacidez dos seus músculos
Mas ouça o canto do cárcere
Nas grades das janelas
Nas câmeras de filmagens
Nas estações... nas garagens
Ouça o cárcere em canto nobre
Nas grades de todos os vícios
Na liberdade a beira do abismo
Tão sujo, tão podre, tão pobre
Ouça o canto em cinzas
Pensamentos poluídos
Devastados, desvirginados
Sem poder cantar a brisa
Ouça o canto, ouça a voz!
Ouça o canto do cárcere
“Liberdade! Liberdade!
Abra as asas sobre nos”.
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